Deu match!

A última vez que estive solteira, o MSN Messenger era o principal programa de conversas – não, não chamávamos de aplicativo, era programa mesmo. O orkut era a grande rede social, o facebook começava a fazer sucesso no Brasil e smartphones não eram populares. Usávamos os celulares só para ligações mesmo.

Por esse primeiro parágrafo vocês podem ter uma ideia de como foi voltar para o universo dos avulsos após mais de dez anos casada. Mais perto dos 40 do que dos 30, me senti chegando no show de uma banda sobre a qual eu já tinha ouvido falar, mas não sabia a letra das músicas. No mínimo, era estranho me encaixar naquela festa, mas resolvi começar a dançar.

A primeira coisa que precisei aprender é que nós, nascidos no final dos anos 1970 e início dos 1980, temos de perder o preconceito com aplicativos de relacionamento. Mesmo. Os tempos mudaram, usar Tinder ou Happn não é, necessariamente, uma atitude desesperada (dar like em todo mundo talvez). Mas é uma forma rápida e prática de conhecer pessoas. Às vezes a gente acerta, outras erra feio, erra rude.

Um dos primeiros caras com quem dei match era gato. Conversamos muito pelo aplicativo e trocamos telefone. Nos falamos ainda algumas vezes, mas acabamos perdendo contato. Normal. Um dia, procurando um número no whatsapp vi que ele havia mudado a foto de paisagem que usava por outra de um cara completamente diferente daquele do Happn. Joguei a foto do gato no Google e descobri o perfil de um modelo espanhol. O farsante escolheu a dedo as fotos mais informais postadas ali e usou como sendo apenas de um homem bonito de Porto Alegre. Bloqueei e denunciei. Mas o papel de trouxa permaneceu. Aprendi a primeira lição.

Muitas lições vieram depois. Não dar like em quem só tem uma foto, nem em quem só aparece de óculos escuros. Não trocar telefone antes de uns três dias de conversa sob pena de um turbilhão de mensagens e ligações indesejadas. Sempre ler o perfil, ainda que seja muito bonito. Se não tiver perfil, só se for capa de portfólio. Segurar a vontade de curtir só porque o cachorro é muito fofo. Trocar ideias com quem também usa o aplicativo para ter certeza de que não está combinando de sair com o crush da amiga. E estar preparada para surpresas positivas ou negativas quando, finalmente, marcar o date.

Apesar da praticidade, ainda me parece uma forma estranha de se relacionar. A altura, a voz, o sex appeal, coisas fundamentais para determinar a atração por alguém ficam por um bom tempo na imaginação. Fotos e descrições até ajudam a chutar um perfil, mas é impossível saber se o que está na cabeça é o que vai se materializar na mesa do pub. E tem o agravante de que ambos foram ali para se conhecerem. Se não tiver química, fica aquele climão, tem que achar uma deixa para ir embora sem ser grosseira… “Nunca mais entro nessa p%&#a de aplicativo”, juro eu – de dedos cruzados.

Uma semana depois, já superei e, se bobear, já marquei outro date. E é disso que se trata a vida, não? Existe o ideal e existe a realidade. Ter jogo de cintura com a segunda pode nos levar ao primeiro. Aceitar a realidade não é se conformar, é buscar uma forma de conviver em paz com ela. E, quem sabe, até mudá-la se for preciso. O importante é não vê-la como inimiga porque, definitivamente, ela não é. A oportunidade de ser feliz está no mundo real, não naquele idealizado. E se está difícil de entender, tem que seguir tentando. Uma hora vai dar match.

 

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